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A Menina Cega Que Via Cores
Que o mundo foi feito para a incompreensão e dela saem os maiores triunfos, lembrados ou
esquecidos, não sou o primeiro que sabe. Justamente, a vida continuará a me surpreender sem
aviso até que a memória viva seja um bolinho insosso esquecido no canto do quarto. Por um
inesperado sufrágio divino, os primeiros anos de Liz foram obscuros: seus olhos eram os sininhos
presos à batente da porta, os guizos colocados dentro da barra das calças, ou até mesmo o ar
quente sempre incômodo que provinha do quarto do pai de vez em outra à noite. Quando se
confundiam sons e fragrâncias, a movimentação era uma tormenta desenfreada onde nada fazia
sentido e tudo perdia significado; só um vinil a tocar de trás para frente para explicar o que havia
acontecido. Suas cantigas, banhos ou qualquer atividade ao bel-prazer jaziam em garrafões
fechados, jogados num campo de acônitos.
Passaram-se seis invernos até que suas dúvidas florescessem na mais colorida das
primaveras. A figura materna de Liz era um conceito, cujas formas estavam distantes dos
momentos de imaginação, uma vez que morrera no ano anterior, deixando a joiazinha de beleza
aromática no mundo. Um dia, ela disparou com ar de solidão irremediável, "Papai, como é uma
cor?", e, por um instante, nada lhe veio à mente, deixando a pergunta ressoar por toda uma manhã
de friagem luminosa. Mais tarde, em pleno zênite, Henrique, para preparar o chá do meio-dia, foi
buscar algumas folhas de hortelã com Liz, quando o cheiro característico lhe ascendeu uma ideia,
e ele esmagou todas as folhinhas contra seus dedos. Feito isso, colocou a mão com os amassados
sob o pequeno nariz agudo da filha:
– Sente o cheiro? Isso é verde.
– Então chá é verde, papai?
– Se não for verde, não é chá. – respondeu orgulhoso.
Convencido de que um sentido em particular não é mais que a cria entre várias
sensações experimentadas, o pai atento procurou perscrutar de forma extenuante a ligação uns e
outros sentidos do corpo, crente numa sinestesia geral que traria cores aos olhos da pequena Liz.
Um tempo depois, agarrou a menina no colo e foi até o quintal do fundo de casa, passando pelo
frio corredor de madeira. Lá, subiu a escada que estava apoiada ao muro da varanda há alguns dias
com a filha sobre os ombros, num desequilíbrio divertido e um tanto perigoso para os dois. Então,
Henrique estendeu seus braços com os braços dela até a telha mais próxima, exposta desde sempre
ao grande Sol envolto no colossal azul do límpido céu. Tiraram as mãos da telha pouco mais de
um segundo após terem-nas colocado lá.
– Aquilo lá em cima é o vermelho – disse. – Quente assim, como arde.
Após brincarem a tarde inteira no grande, quintal rodeado de girassóis e um
cercadinho de madeira branca surrada pelas intempéries, correndo e zanzando por todo lugar como
duas crianças afoitas de mesma idade, pai e filha sentaram-se embaixo da árvore, cansados.
Depois de recuperar o fôlego, ele se levantou e buscou pãezinhos recheados com queijo. Enquanto
se sujavam e comiam o lanche, Henrique explicou que aquele gosto salgado provinha do amarelo,
assim como a textura derretida. Parecia tê-la feito associar quase com exatidão, o que tornou tudo
mais interessante. À noite, antes de banhá-la, as luzes do andar de baixo estavam quase todas
apagadas, com apenas a da sala de estar e uma lâmpada de fora acesa. O frio já tinha chegado e se
assentado na casa, como também na noite, quando levou a Liz para o banheiro. Lá, Henrique
encheu a mão de creme de barbear, e passou nas mãozinhas rosadas dela, que não conseguiu
fechá-las antes que a espuma se desfizesse: – Isso – disse – é o branco, alvo e delicado.
Pela abertura da noite, na sacada do andar de cima, sentada sobre seu ombro
esquerdo, a menina, mais branca que a mais Nova das Luas, se arrepiou com o sopro de uma brisa
leve. O pai, sem perder o momento, diz: – Isso que você acaba de sentir é o azul. Nesse instante,
ele acaricia o rosto outrora sem expressão, que agora se mostra aberto e radiante. Já ao dormir,
tendo a testa beijada com o maior dos amores do universo, Liz, em seus direitos de ingenuidade
infantil, emerge uma nova dúvida:
– Papai, a mamãe vê as cores lindas assim do jeito que são no céu?
Então, reflexivo e segurando o choro de ávida emoção, Henrique suspirou:
– A mamãe enxerga todas as cores do mundo, e está pintando um lindo quadro para
nós nesse momento, com uma imensidão de amarelos, vermelhos, azuis e mais qualquer uma que
quiser! – De seus olhos, descem, vagarosamente, lágrimas sinceras. – Um dia, você vai ver todas
essas cores e vai ser uma grande pintora, mas só depois de receber o quadro da mamãe,
combinado?
– Combinado! – respondeu Liz, que viu com olhos de menina, pela primeira vez na
vida, as matizes da estrela que aguardava sua chegada, em um futuro certo, mas ainda remoto de
sua frágil existência.
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